Sonetinho bonitinho dismétrico do ansioso
Já escrevi sobre você
já esqueci de deixar pra lá
já fiz contatos, contas e até
memória do que ainda será
Já nos conhecemos,
nos apaixonamos, vivemos felizes,
brigamos e fizemos as pazes
Você é o único
que ainda não sabe
e por isso não te perdoo
Certamente esse será o motivo
da nossa separação
É uma pena que tudo tenha sido só um ensaio
dentro da infinita capacidade
da minha imaginação.
Carola Bitencourt
19/06/2018
D.H.
19 de jun. de 2018
29 de abr. de 2018
Sobre a viagem II
Hoje saindo na varanda senti o ar pela primeira vez mais
frio que o do quarto. A amplidão do terreno ao lado, vazio de construções e
cheio de um mato inidentificável, nessa quantidade grande de metros, lembraram
a sensação do sereno caindo na pele em algumas noites durante esses 68 dias.
Naquele momento não havia ar frio, só uma brisa cortando as bochechas como
sopro de respiração de mãe amamentando. O mundo, esse gigante redondo onde
colamos por gravidade, dava seu tom de berço. Era possível, abrindo os braços
com o queixo apontando o alto, perceber a atmosfera ao redor, de olhos
fechados.
Claro, a vibração de se compreender parte de um todo saía
pelos poros graças ao tipo de vivência que era experimentada. Nenhum elo com
compromisso de proletariado, a única marcação de ponto era a que tachava o
estômago e o instinto auto protetor: quando comer, onde dormir... As
necessidades eram de fato básicas e a vontade de estar ali, realizando essa empreitada
sanava qualquer desejo secundário. De repente o desejo de encontrar o look da
night de sábado foi substituído por longas linhas emaranhadas de estrelas
brilhantes, vez em quase sempre uma cadente, a fome por um novo romance substituída
por um escalda pés de água morna, salgada e massagista, trazida e levada nas
espumas frescas. Toda vontade fútil, funcional ou não, era arrebatada por uma
sensação de completude, um sentido oposto ao que nos regam as telas eletrônicas
ou qualquer dispositivo com objetivo marqueteiro.
Essas noites em que o ouvido estava chafurdado nos sons do
atlântico eram as mais recompensadoras. Geralmente vinham depois de uma batalha
travada no equilíbrio das rodas sustentando o peso dos itens exagerados
carregados e o do meu corpo que já dava sinais de alguma diferença, embora não
fosse religiosa ortodoxa, muito mais para o paradoxal estava, a frequência do
exercício e brindavam um quê de troféu sem competição excludente. Quando se
alcançava o destino, tendo ele sido pré-estabelecido ou pós, chegava a
recompensa: uma areia livre de humanos barulhentos, um reflexo prata no líquido
bravio imenso e essa brisa de mãe Terra cortando os músculos labutados. Hoje
saindo na varanda também lembrei da saudade que senti naquelas noites desse ar
frio aqui de fora. Todo o mundo é diferente do quarto.
Carola Bitencourt
29/04/2018
22 de abr. de 2018
Sobre a viagem I
Muitas vezes me pego pensando em escrever sobre o que, e por
onde, passei nessa viagem. A verdade é que esses caminhos continuam passando
por mim, a cada sol despertado no abrir dos olhos, dia após dia. Tenho o
completo convencimento de que não ficaram para trás os acontecimentos, trouxe
todos comigo, assim como carreguei nos alforjes os bichos internos que havia
criado e mantido nos meus anos de crescimento, trago agora à base de cigarros
pensativos os saberes transformados nesse período de trajetos traçados e
pedalados num esforço maior do que já havia me acostumado.
Quero transportar do alforje para o Word 68 dias de círculos
dados pelo joelho, tornozelo, pernas, 68 dias de braço em tronco empurrando em
diagonal uma magrela de 75 quilos ladeira acima, 68 dias de serotonina espalhada
pelo corpo resultando num sorriso esplêndido com moldura líquida de suor
descendo pelas bochechas. Me pergunto o tempo todo como catar a memória transbordante
e pincela-la em palavras nessa tela eletrônica branca de maneira que se possa,
lendo, recriar as cores vivas da vegetação rasteira, do azul 180 graus, do
movimento livre e contínuo do vento nos coqueiros altos, do som da respiração
ofegante e determinada dos meus pulmões cansados. Basta um fechar de pestanas
pra sentir novamente a satisfação e leveza das gargalhadas que demos eu e
Binha, basta uma inalação mais forte do ar pra tomar de novo todo prazer das
relações novas com profundidade transparente criadas ao longo do caminho.
São tantas sensações afloradas enquanto escrevo essa meia
página que imagino somente meditando conseguir repassa-las pro papel – virtual ou
não.
Fato é que sinto a necessidade de faze-lo, por vontade de abrir essa vivência aleatoriamente e porque sem aparar o jorro dessa história provavelmente serei afogada pela felicidade pungente que ela representa.
Fato é que sinto a necessidade de faze-lo, por vontade de abrir essa vivência aleatoriamente e porque sem aparar o jorro dessa história provavelmente serei afogada pela felicidade pungente que ela representa.
Carola Bitencourt
22/04/2018
22 de nov. de 2017
Eu no entanto sinto
do muito que pouco escrevo
penso que devo ver
a verdade mesmo doída
tanto a saudade
quanto chegada a partida
Portos vindos a miúde
minha índole permite
a espreita
Perto daqui só o longe
ao longo da caminhada
vida dando bandeira
Cato uns cantos bandidos
aos olhos dos refrescos
desses reflexos perdidos
dou-me ao erro
acerto o torto por esporte
sem sorte agarro o manco
feito foice
na cana de corte
Acordo quase sofrida
levanto com calos
largo a cama batida
te peço paciência
minha carne já vem escrita
Carola Bitencourt
22/11/2017
do muito que pouco escrevo
penso que devo ver
a verdade mesmo doída
tanto a saudade
quanto chegada a partida
Portos vindos a miúde
minha índole permite
a espreita
Perto daqui só o longe
ao longo da caminhada
vida dando bandeira
Cato uns cantos bandidos
aos olhos dos refrescos
desses reflexos perdidos
dou-me ao erro
acerto o torto por esporte
sem sorte agarro o manco
feito foice
na cana de corte
Acordo quase sofrida
levanto com calos
largo a cama batida
te peço paciência
minha carne já vem escrita
Carola Bitencourt
22/11/2017
14 de set. de 2017
Perdi o
sono.
sem ele: sua
lembrança.
Fico
escrevendo achando que tatuo sua membrana
Me parece
óbvio que tu não vai ler
Nossa
distância certifica
Talvez seja
esperança de te rever
ou o desejo
de reencontrar sua risada plena
É muito mais
um sonho,
mas sem sono
some a possibilidade
Quem dera
pudesse juntar
nossas duas
cidades
a sua traria
a cidadania militante,
a minha um
certo senso de liberdade
Seriam dois
nortes notórios,
um sul sucinto
e unido
o seu
daquele jeito de quem melhor sabe,
o meu
lutando na tentativa de ainda crer na humanidade
Traríamos pra
mais perto os portos,
os olhos, os
ouvidos
Tramaríamos amores
postos
em pé de
igualdade
guardaríamos
os dentes,
mostrados apenas
àqueles políticos
polidos pela
falta de caráter,
carecidos de
informação forte,
compaixão e
completude
Seria a soma
uma coisa
mais serena
Nasceria uma
parceria, sem posse
sem pose,
sem penas
apenas a
vontade astuta
de viver em
sociedade,
sem saudade
sentida na pele,
pelo menos
enquanto nos impele
esse tanto
de querer,
que nem sei
se bate só em mim
ou se também
transpira em você
Esse poeminha
bobo
reflete o
meu tanto
Espero sua
mensagem aflita,
agradeço até
se ela não vem
assim não
alimento expectativa,
mas me
pergunto se você a tem
Tento dormir
mais uma vez,
esperando que
você apareça
no meu
inconsciente já está sua presença
Boa noite,
sortudo.
Tudo que
posso dizer é:
que um dia
você me leia!
Carola
Bitencourt
09/09/2017
A.O.
A.O.
27 de jul. de 2017
na primeira semana enche de elogios
em um mês já fala que ama
dá presente, chama de dona
Quando percebe que ganhou a fêmea
se faz de desentendido
manda aqueles argumentos plagiados e falidos
dá uma de macho desconstruído
Disfarça como estímulo
a diminuição da minha estima
dizendo que tá sobrando nas minhas bordas,
chamando pra exercício na orla
convencendo que é pra aumentar minha beleza
só porque sou diferente da sua última francesa
adora dizer que cozinha o tempero da Bahia
mas não importa em que casa,
só eu que faço a comida
Pior, além de tudo é palmiteiro
grita que luta contra o racismo que sofre
mas não pega mulher preta.
Me critica porque eu tomo meus goró
quando tu mesmo só trabalha
com a cara enfiada na carreira de pó
Longe de mim fazer apologia
à criminalização das drogas
mas se tu fosse vendido em pack
seria mais nocivo que uma tonelada de crack
Posa de galã
que não demonstra afeto na rua porque é tímido
mas vive propondo menage
adoraria me ver chupando buceta
afinal, você que é o descolado
eu é que sou a careta
Tu acha mesmo que a pica paga
o que falta além dela?
Tá pensando que seu rebolado e aquela chupada
compensam o falso intelecto
e o raciocínio dissimulado?
Acredita mesmo que a gente cai de boca
no prato da sua masculinidade
depois de tantos anos sovados
na injustiça e desigualdade?
que a gente atura sua mentira
confundindo amor livre
com submissão sob medida?
De careta a gente não tem nada
Tamo cada vez mais engajadas
Fica esperto que sua hora chega
e quando chegar, não chora
vai se informar um pouquinho
pede desculpa, sai de fininho
que a mulherada tá chegando de sola,
coturno, salto alto, bico fino,
não interessa. A movimentação tá feita
Ou tu muda de postura
ou vai ser posto da porta pra fora.
Carola Bitencourt
26/07/2017
L.NDS
em um mês já fala que ama
dá presente, chama de dona
Quando percebe que ganhou a fêmea
se faz de desentendido
manda aqueles argumentos plagiados e falidos
dá uma de macho desconstruído
Disfarça como estímulo
a diminuição da minha estima
dizendo que tá sobrando nas minhas bordas,
chamando pra exercício na orla
convencendo que é pra aumentar minha beleza
só porque sou diferente da sua última francesa
adora dizer que cozinha o tempero da Bahia
mas não importa em que casa,
só eu que faço a comida
Pior, além de tudo é palmiteiro
grita que luta contra o racismo que sofre
mas não pega mulher preta.
Me critica porque eu tomo meus goró
quando tu mesmo só trabalha
com a cara enfiada na carreira de pó
Longe de mim fazer apologia
à criminalização das drogas
mas se tu fosse vendido em pack
seria mais nocivo que uma tonelada de crack
Posa de galã
que não demonstra afeto na rua porque é tímido
mas vive propondo menage
adoraria me ver chupando buceta
afinal, você que é o descolado
eu é que sou a careta
Tu acha mesmo que a pica paga
o que falta além dela?
Tá pensando que seu rebolado e aquela chupada
compensam o falso intelecto
e o raciocínio dissimulado?
Acredita mesmo que a gente cai de boca
no prato da sua masculinidade
depois de tantos anos sovados
na injustiça e desigualdade?
que a gente atura sua mentira
confundindo amor livre
com submissão sob medida?
De careta a gente não tem nada
Tamo cada vez mais engajadas
Fica esperto que sua hora chega
e quando chegar, não chora
vai se informar um pouquinho
pede desculpa, sai de fininho
que a mulherada tá chegando de sola,
coturno, salto alto, bico fino,
não interessa. A movimentação tá feita
Ou tu muda de postura
ou vai ser posto da porta pra fora.
Carola Bitencourt
26/07/2017
L.NDS
17 de jul. de 2017
Da antiga mesa só sobrou o retrato de Greta e Audrey. O tampo foi tomado por tarjas, cartelas metálicas, líquidos temperados e tabelas de horário.
Das noites ao sereno sobraram apenas as fotos, a saudade das vistas não registradas e o silêncio no ouvido, mais sentido após tanto burburinho.
As unhas cresceram na falta da necessidade de poda, depois de tanto tempo sem bater os dedos nos quadrados plásticos mal ordenados.
Daquela feroz alimentação afoita e falha, nada. Agora ficou somente o cozido lento, sem unguento, e por enquanto obrigatório no ponteiro das horas certas.
Na cama não cabe mais ansiedade, saiu o último vício escorrido no enxágue da roupa suja. Pretende-se não enlamear novamente a alva calma.
A contagem planejada do ano, ano novo e novena até pós carnaval foram suspensas. Pairam sobre o deleite de outro sol, à frente ou atrás das nuvens, presente cobrando plácido a postura ereta.
De tantos desfechos possíveis hoje me satisfaço com o fim das linhas de uma página escrita contando com a próxima, só amanhã.
Carola Bitencourt
15/07/2017
Das noites ao sereno sobraram apenas as fotos, a saudade das vistas não registradas e o silêncio no ouvido, mais sentido após tanto burburinho.
As unhas cresceram na falta da necessidade de poda, depois de tanto tempo sem bater os dedos nos quadrados plásticos mal ordenados.
Daquela feroz alimentação afoita e falha, nada. Agora ficou somente o cozido lento, sem unguento, e por enquanto obrigatório no ponteiro das horas certas.
Na cama não cabe mais ansiedade, saiu o último vício escorrido no enxágue da roupa suja. Pretende-se não enlamear novamente a alva calma.
A contagem planejada do ano, ano novo e novena até pós carnaval foram suspensas. Pairam sobre o deleite de outro sol, à frente ou atrás das nuvens, presente cobrando plácido a postura ereta.
De tantos desfechos possíveis hoje me satisfaço com o fim das linhas de uma página escrita contando com a próxima, só amanhã.
Carola Bitencourt
15/07/2017
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