22 de jun. de 2010

"Choraaaa, não vou ligar! Não vou ligar! Chegou a horaaa..."

Chorar é pouco
broto do verso miúdo
guardanapo guardado no bolso
quase húmido
meio seco de tinta
receitado gota de bica
Ressalto do alto do urro
decidida do beco do morro
Escada por cimento batida

Castigo é não ouvir
dizer sem pasma palavra
letra esmiuçada
cerveja bebida "goelada"
duelo de língua secada
Choraa...
Não vou escrever.

Carola Bitencourt
18/06/2010

15 de jun. de 2010

Não falso mais poesia
Refaço textos em papel colorido
imitando cérebro percorrido
meu
Traço sim poder redativo
despretensioso de esperança
equilíbrio certeiro da destemperança
sarna que coça mão viciada
arranca da folha vazia
qualquer querer relutante
em parecer transparente
entre parênteses (armas)
aspas minhas de cada dia
ou
página 1/ unidade cada
Não faço mais poesia
pauso poses de prosa
rosa desbotada
encadernada sem pauta
Pontuo discrepância tardia
madrugada esmiuçada
desfaço fósseis ressuscitados
saído do plástico
pontado esférico preto
por vezes tampado
bic
Belisco roxo peledural
contando em ais melodiosos
melancolia
Relaxo peito cansado.

Carola Bitencourt
14/06/10

18 de mai. de 2010

A gente acha que pode se livrar de algumas ideias. Se convence disso e segue dando passos. Se esquece delas, e faz de conta que não se lembra.
O desejo é um bicho cupim, não carpinteiro. O carpinteiro constrói coisas, o cupim se alimenta delas. O desejo se alimenta das ideias. Come-as como mendigo seco em banquete gratuito de comida refinada. Come por fome e não por apreciação.
Se na segunda a vontade é não ter TV e se aconchegar a fogueira interna pra fugir do frio, na sexta a vontade é se jogar na fogueira, fugir do interno e abrir o mundo subterrâneo.
Há quem diga: Maravilha!, é isso o melhor de ser humano, pensante, "escolhedor".
Pra mim, só tenho bichos cupins. Mudar de ideia é mais uma maneira de desperdiçar todo o esforço derramado em prol do objetivo que um desejo, já retrogrado, me ofereceu.
Felicidade é mais um nome/lugar como Atlântida, UnderLand, Triângulo das Bermudas. Utopia de quem se encharcou nas gotas de Lucy in the Sky with Diamonds, e achou que nadava por lá por dois segundos.
Querer é o que aprendemos primeiro. Nascemos querendo. Leite, sono, abraço, calor, TV LCD, Jacuzzi, Camarão VG, Show da Madonna, primeira classe, bons sonhos, um amor inesquecível recíproco, comida de vó pela vida toda, saltar de paraquedas, reconhecimento profissional, casa no campo, na praia, em Ibiza e um AP em NY...
A gente nasce, cresce, fica rico (ou morre depressivo) e depois morre feliz. (Hã?)Pra que isso tudo????
Não vou virar hippie, já tentei na adolescencia e não deu certo. Quando percebi que não tinha restaurante japones no Sana, o desespero foi do mesmo tamanho e proporção que o prazer de comer um salmão cru, bem fatiado, e sem que eu tivesse gastado mais que a energia de levantar o braço e chamar o garçon. Não consigo virar hippie, mas tenho inveja daqueles que são e ainda conseguem ser limpinhos. Preocupar-se somente em alimentar-se bem, ter filhos, e viver basicamente de amor (a música, a arte, ou a qualquer coisa que nós, meros capitalistas, conseguimos consumir) seria realmente um feito e tanto. Afinal, no fim da redundância, SER HUMANO é grupal. Quem vive sozinho está em outra classificação animal, não serve nem pra ser cupim.

4 de mai. de 2010

Não sei como julgar verso
Não sei conjugar verbo
por isso mesmo berro
diante da gramática sintética
da
linguagem sem fonética
da
métrica estética
pregada sob percevejo de ferro
no meu quadro de cortiça

sou omissa com a ética
voto branco da bulímica
nem um pouco policial

Peco pela correção política
(politicamente incorreta)

Certa mira dislexica
que se atem a ira.
suficientemente preguiçosa
pregando sulfúrico
pingo cristalizado
sentimentalista

Página branca e caneta
sem web, mais gazeta
sem etiqueta, nem tag
nem Meg, nem spotlesseira

Odeio a vida iníqua de algumas letras
e choro pela morte das palavras obsoletas.

Rimo, remo, remember-ei!

Acento circunflexo
no trema depois do hífen de

...........^
NÃO-SEÏ

Carola Bitencourt
03/05/10

28 de abr. de 2010

ANTES

MEU ESCREVER

ERA JORRO ESGUICHADO

DE UM LADO A OUTRO DA PÁGINA

ANTE AS LINHAS

UMA MÁQUINA

MEU CÉREBRO EMINHOCADO

AGORA...

TORNEIRA COM REGISTRO DESREGULADO

PINGA, GOTEJA PALAVRA POUCA

TORNEI POSSA

O POSSO ARTESIANO

CAVUCANDO QUASE INTEIRA

CADUCA DE AFANOS

O CASAMENTO DAS LETRAS ME ACENA

DEBOCHADO!

Carolina Bitencourt
21/03/06

18 de abr. de 2010

Saí de casa correndo, querendo aproveitar ao máximo as horas que tenho. Acabei esquecendo o celular.
Me sinto nua, como se nada tivesse além de uma língua muda.
Estranha sensação rara, já que nunca esqueço do aparelho que me parece segunda boca e um terceiro ouvido.
Como se faltassem mãos para acenar ao avião que passa acima da ilha onde naufraguei.
Como podem esses pequenos montinhos de ferro, pedra e plástico ser tão imprescindíveis a ponto de nos sentirmos amputados quando nos faltam companhia?
"Diga-me com quem andas e eu te direi quem és."
Será que virei objeto eletrôMico?

Carola Bitencourt
22/02/10

16 de abr. de 2010

Sexta

São chances várias. Incluindo a de não haver sucesso algum. Trabalho com a hipótese de existir comemoração em qualquer uma delas. Caso meu objeto de desejo se quebre, o desejo continuará intacto. Em tempo, haverá nova fórmula previamente arquitetada para bom final. Em um único dia, ou noite, serão 3 possibilidades, certamente usadas até sua totalidade, se alguma fracassar:
Primeira: Dar de comer aos tigres. Um só, pra ser mais exata. Saciar minha própria vontade de doação, meu ímpeto em ajudar terceiros, simultâneamente agradando a mim mesma.
Segunda: Rodopiar em corda bamba de luz negra, pendurada ao globo de mozaico prateado de algum já definido cômodo público escuro, abastecido o suficiente de diversão líquida, lícita e gelada. Enquanto embalada por trilha governada por acordes gritados e remexidos por mãos controladoras da mecânica. Então, talvez, no fim, encontrar outro tigre que não o objeto 1 para alimentar e arriscar a proximidade das garras.
Terceira: Descobrir antes do começo da maratona que o prêmio não será entregue por burocracia democrática capitalista, e criteriada especificamente na estética atual, percebendo assim que mais vale descansar os músculos, escaldar pés em baldes de pipoca temperados a guaraná, com toques de qualquer tipo de guarnição preferencialmente gordurosa. Com o fim Balsâmico das cordas e sons de um aparelho erudito usado pra difamar pontas de dedos e ouvidos roucos. Ainda/mesmo/porém bem escolhido como companhia a altura antes da derradeira certeza de que todas estas possibilidades jamais trarão plena satisfação.
Afinal, amanhã é outro dia,
a vontade é mais outra
e o tempo sempre trará novas sensações almejadas...

Carola Bitencourt
15/04/10