Rabiscar
rebuscar a forma
biscatear um jeito
de avassalar a norma
avançar a borda:
o calcanhar do feito.
Carola Bitencourt
18/04/2006
25 de nov. de 2012
Se as primeiras impressões são as que ficam,
esqueça aquela em que o nervosismo
fincou em mim a fala bruta.
Se houver ainda algum resquício
de vontade recíproca
lembre-se das gargalhadas de antes
inversas diante da fome
em que açoitamos minutos
como meros coadjuvantes
Esqueça essa minha tensão
com os pratos requintados,
que pra mim, nada mais são,
que doces deleites não comumente visitados
Lembre-se daquela saudável conversa
banhada a goles de olhos inebriados
e um bocado de vozes roucas
no pé do ouvido embriagado
Guarde a audácia pouca e interessante
da liberdade aberta em te encontrar na quinta
entregue o abraço frouxo
à força sísmica entalhada nas falhas do laço
entre o seu braço e o meu pescoço
me receba com mais que um pequeno sorriso
mas um grande brilho refletido na íris
ao me entortar prazerosamente o dorso
Se existe ainda alguma chance de deixar
o cícero não ser trilha de terror
mande a marisa fazer o curso do contador
e eu farei o gelo derreter com suor.
Carola Bitencourt
25/11/2012
esqueça aquela em que o nervosismo
fincou em mim a fala bruta.
Se houver ainda algum resquício
de vontade recíproca
lembre-se das gargalhadas de antes
inversas diante da fome
em que açoitamos minutos
como meros coadjuvantes
Esqueça essa minha tensão
com os pratos requintados,
que pra mim, nada mais são,
que doces deleites não comumente visitados
Lembre-se daquela saudável conversa
banhada a goles de olhos inebriados
e um bocado de vozes roucas
no pé do ouvido embriagado
Guarde a audácia pouca e interessante
da liberdade aberta em te encontrar na quinta
entregue o abraço frouxo
à força sísmica entalhada nas falhas do laço
entre o seu braço e o meu pescoço
me receba com mais que um pequeno sorriso
mas um grande brilho refletido na íris
ao me entortar prazerosamente o dorso
Se existe ainda alguma chance de deixar
o cícero não ser trilha de terror
mande a marisa fazer o curso do contador
e eu farei o gelo derreter com suor.
Carola Bitencourt
25/11/2012
18 de nov. de 2012
to naquela hora em que a gente tira a bateria do telefone,
ou se asfixia no dia seguinte.
naquele momento em que a altivez da razão já deixou de lado a voz tonante alta,
e faz agora um backing vocal da emocional sinceridade,
daquelas que exasperam a fixação em reter o âmago,
e desembocar o líquido excessivo.
nessa vontade astuta de trazer o desejado
sem contar som cantado ou veste visível.
são essas vezes que mudam a vida,
ou te atropelam a caminhada feita
nessas é que se repensa a carapuça,
ou se pinta o rosto de colorido.
Agora é quando decido que tipo de pele me cobre
se aquela em que sinto frio,
ou se a outra em que meu sangue é sorte..
Sem medo de errar a medida
prefiro meu edredom de soft.
E boa noite.
Que o sol amanhã me acorde.
Carola Bitencourt
18/11/2012
12 de nov. de 2012
Vejo gente que se preocupa com as cartas de natal que as crianças intoxicadas de falta de afeto e fartura deixam nos correios aos montes, como bancos de neve de um papai noel fantástico.
Além da incoerência de colocar um velhinho branco, barbudo, barrigudo, que veste roupas de frio num calor de 40°, como representante de uma esperança obsoleta de que um objeto numa data específica pode trazer algum alento aos famintos de carinho, ainda me pergunto se ninguém percebe a inconsistência de colocar nessa atitude (comprar presente de caridade) sua prova de amor ao próximo.
Certamente, há de haver um susto quando me digo indignada com essa falsa sensação de saciedade a que se dá o prazer o ajudante do natal dos pobres.
Além de contribuir pra maior fonte de desigualdade social do mundo (o capitalismo), ainda há a ideia de que ao entregar o comprado, o resultado será um belo sorriso, e um rostinho mais feliz pra esses desprovidos: por algumas horas, ou até que o brinquedo se quebre.
Meu rostinho fica bem sisudo.
Percebo o quanto estamos engodados nessa trama fatal do espírito natalino, do ato filantropo, da ajuda superficial, em prol de um minuto de alegria.
Que tal, se ao invés de ler cartas anonimas, nos déssemos ao trabalho de ler numa escola, ou num centro comunitário, ou na casa da mãe joana com dez filhos, a importância de votar, pensar e usar camisinha? Tenho certeza que no natal que vem, não viriam pedir a superficialidade de um pedaço de plástico...
Além da incoerência de colocar um velhinho branco, barbudo, barrigudo, que veste roupas de frio num calor de 40°, como representante de uma esperança obsoleta de que um objeto numa data específica pode trazer algum alento aos famintos de carinho, ainda me pergunto se ninguém percebe a inconsistência de colocar nessa atitude (comprar presente de caridade) sua prova de amor ao próximo.
Certamente, há de haver um susto quando me digo indignada com essa falsa sensação de saciedade a que se dá o prazer o ajudante do natal dos pobres.
Além de contribuir pra maior fonte de desigualdade social do mundo (o capitalismo), ainda há a ideia de que ao entregar o comprado, o resultado será um belo sorriso, e um rostinho mais feliz pra esses desprovidos: por algumas horas, ou até que o brinquedo se quebre.
Meu rostinho fica bem sisudo.
Percebo o quanto estamos engodados nessa trama fatal do espírito natalino, do ato filantropo, da ajuda superficial, em prol de um minuto de alegria.
Que tal, se ao invés de ler cartas anonimas, nos déssemos ao trabalho de ler numa escola, ou num centro comunitário, ou na casa da mãe joana com dez filhos, a importância de votar, pensar e usar camisinha? Tenho certeza que no natal que vem, não viriam pedir a superficialidade de um pedaço de plástico...
É muita coisa pra fazer,
pra ler,
pra organizar,
pra beber,
pra ouvir,
pra curtir,
assistir,
gargalhar.
é tanto não sei dizer,
tanta cara pálida peluda,
tanta razão homeopática,
tanta balela pesada nesse mar de baleias sorumbáticas
que a gente fica assim
nesse marasmo de mim, você, eu, aquele, quem, quando, quanto, por que tanto?
parece que a gente merece a mercê que exerce,
e deixa de ver a voz do vulto da consciência,
que já tá tão invisível quanto o indivíduo dividido.
quantas horas olhando o espelho refletido com o eixo do outro
quanto exu exuberante querendo ser estrela cadente
um moinho de cento e cinquenta tons de transparência.
e basta um sorriso diferente
pra se criar uma enchente de crença no deserto da esperança...
Carola Bitencourt
12/11/12
3 de set. de 2012
Mais uma carta que te endereço.
todas as outras não mandei,
essa ao menos está escrita
contrária a mania minha de ditá-las a mim mesma
e deixa-las amarelando ao passar dos neurônios
dentro do meu cerebelo
outras palavras ditas que nunca chegarão ao seu ouvido
mais algumas linhas estraviadas da lembrança que não teremos
estão jogadas sem vento algum pra levar a fertilização
te pensar não satisfaz
mas afaga a falta que sinto
me iludo nas alusões a outros casos parecidos
que uso pra injetar nas lacunas vazias
dessa nossa que não existe
fixo o ponto de não creio
assim como a devota devolvendo à vela
alguma esperança mácula.
mantenho os pés no chão
e a alma presa a estrutura
dos bichos de asas leves e sem gravidade
nem sambo, e caio, não tropeço
trôpega te peço um pedaço
dessa sorte arteira que te abraça
a dar-lhe a fagulha de riso contido no canto da boca
exijo ao menos que eu não seja solta antes de estar perto
da crista das árvores
pra que a queda não me quebre inteira os cacos remendados e frágeis.
Carola Bitencourt
03/09/2012
todas as outras não mandei,
essa ao menos está escrita
contrária a mania minha de ditá-las a mim mesma
e deixa-las amarelando ao passar dos neurônios
dentro do meu cerebelo
outras palavras ditas que nunca chegarão ao seu ouvido
mais algumas linhas estraviadas da lembrança que não teremos
estão jogadas sem vento algum pra levar a fertilização
te pensar não satisfaz
mas afaga a falta que sinto
me iludo nas alusões a outros casos parecidos
que uso pra injetar nas lacunas vazias
dessa nossa que não existe
fixo o ponto de não creio
assim como a devota devolvendo à vela
alguma esperança mácula.
mantenho os pés no chão
e a alma presa a estrutura
dos bichos de asas leves e sem gravidade
nem sambo, e caio, não tropeço
trôpega te peço um pedaço
dessa sorte arteira que te abraça
a dar-lhe a fagulha de riso contido no canto da boca
exijo ao menos que eu não seja solta antes de estar perto
da crista das árvores
pra que a queda não me quebre inteira os cacos remendados e frágeis.
Carola Bitencourt
03/09/2012
Nunca fui (a)política
Nunca fui católica
nem apocalítica
Aposto uma hóstia pálida
como não chego as cólicas
outras vezes farei sádica
o corte módico na parte ácida
será certeiro o profundo ócio
apedrejando meu pesadelo
o dedo apontando o ópio
e a razão pedindo zelo
os erros bastardos escarnecidos
voltarão a soltar-se dos pelos
entre a pele será escarnecida
a alva doçura da plebe
enquanto os rumos subirem aos cumes
continuaremos sem prumo
com costumes impuros
impróprios para banho
e o cúmulo de consciência obtida
será a assinatura no cheque em branco.
Carola Bitencourt
24/09/2012
Nunca fui católica
nem apocalítica
Aposto uma hóstia pálida
como não chego as cólicas
outras vezes farei sádica
o corte módico na parte ácida
será certeiro o profundo ócio
apedrejando meu pesadelo
o dedo apontando o ópio
e a razão pedindo zelo
os erros bastardos escarnecidos
voltarão a soltar-se dos pelos
entre a pele será escarnecida
a alva doçura da plebe
enquanto os rumos subirem aos cumes
continuaremos sem prumo
com costumes impuros
impróprios para banho
e o cúmulo de consciência obtida
será a assinatura no cheque em branco.
Carola Bitencourt
24/09/2012
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