14 de mar. de 2012

Não sou uma pessoa de um grande talento incrível.
Sou pessoa de vários talentos pequenos e únicos.
As vezes finjo que o SBP é uma lata de spray e grafito a morte dos mosquitos no ar.
Quando pinto as unhas do pé, imagino que são o branco nos brincos de pérola do quadro barroco de 1900 que pintei em outra época.
Faço uma varredura no disco rígido do cérebro toda noite, ou dia, antes de dormir. E desconecto as mensagens instantâneas entre meu córtex e seus núcleos quando bocejo o último soneca da máquina de pensar.
Se assisto um filme sinto a lágrima escorrer na minha tela por dentro da pálpebra.
Toda vez que escrevo vejo as linhas dos cadernos de caligrafia que eu percebia entre as linhas amarelas do asfalto, ao atravessar a rua de mãos dadas com a responsável.
Sou viciada em caixas de sapato mais que pastas sanfonadas com divisórias.
Começo o banho lavando a mesma coisa que lavo de novo quando termino.
Não sou uma pessoa de um pensamento incrível.
Sou uma pessoa de pensamento aberto!

Carola Bitencourt

12 de mar. de 2012

O relógio bateu errado
Deixei uma guitarra partida
e um coração quebrado
Um fala muito
o outro pensa pouco demais
Minha vontade agora descansa
entre uma pista redonda
e umas rodas minimalistas
quase o círculo que piso
quando o riso força as vias lacrimais
Olho praquele que deu à deus a deusa
see you later alligator
goood bye!

Carola Bitencourt
12/03/2012

1 de mar. de 2012

Vem me iludir
Me rasgar a cicatriz
Vem me dar o tapa na cara
Por puro gostar da brutalidade
Vem amarrar minha mão ao santo
Vem me cuspir o pranto que jorrei
Traz meu verdadeiro pânico
Em forma de travesseiro
Pra acompanhar os sonhos que durmo

Vem saquear minhas boas lembranças
Corte minha carne cerebral flácida
A fim de expor minha fragilidade
Recrie o monstro debaixo da minha cama
Gargalhe da minha esperança
A ponto de ser o cristo vestido de demônio.

Sove minha sorte com galhos de azar
Corte as asas que acabei de sarar
Bloqueie com muros espessos de cimento
Meu céu azulado e livre
Quebre minha auto-estima em cacos
Aposte todas as fichas no meu fracasso

Seja o capataz
A me laçar as pernas enquanto corro,
meu algoz, a me ralar a pele.

Seja quem você é.
Deixe-me no pó da fogueira
Cinza esfumaçada.

Meu bem,
Só não se esqueça:
Todos esses tratos maus
são curáveis.
E me servem
Pra clarear a consciência.

Quando erguida,
A única coisa que não ressuscitará
Será você
Dentro de mim!

Carola Bitencourt
11/08/2011

28 de fev. de 2012

Um amor perdido no espaço
sem achar a ponta do laço de estreia
Esse é meu amor
sem feixe de luz
que lhe de direção,
uma flecha lançada sem mira
a despeito do céu rasgado
encontrando o chão,
lacuna aberta da resposta sina
cavada na voz de um violão

Sim.
Ainda amo!
aquele momento insólito de conexão,
as risadas frouxas sem risco de atrito,
os olhos apertados em volta do grito,
as mãos abraçadas em torno da nuca
tantas vezes cansadas e satisfeitas

E falta

Até que recordo da corda no pescoço
as faces viradas acima do dorso
o desdém de ir sem olhar pra trás
a frieza nítida do “não serve mais”

Lembro sorrindo das noites de água,
do cantar soluçado surtindo efeito,
flores nos dias de fraqueza
e beijos de despedida

Até que me vem o motivo
de tanta força pra tornar desconhecido
o tal ar soberbo e obedecido
de acusar meu lado de única causa
prum mar de ódio em que eu não era nascente
uma fúria de vento gelado cortando minha essência
toda a certeza de me querer pra cristo
Matando minha beleza pra dizer que existe
insistindo no erro de fingir
antes que se convença,
criando o alimento podre
como lavagem de porco pra borboletas

Prefiro meu amor de hoje
sem objeto
Nada objetivo
do que o "meu bem" passado.

Suspiro com o que pode amortecer o ontem,
com o futuro incerto
que ainda sonho em acertar em cheio
numa silhueta definida na minha cabeça...

Nem sei se vou encontrar.
Talvez já me baste a quimera
a voz da consciência que volta a me afagar
A ideia absorta em pensamentos cotidianos
dando novo folego
a essa procura sem preocupação de achar

Terei um príncipe encantado em cavalo branco
e nele, selado, galopar, galopar, galopar

alvo flechado

a vista presa no ar!

Carola Bitencourt
28/02/2012

26 de jan. de 2012

Tem quem goste, ô se tem

Tem quem se lambuze

Tem quem se assunte
na minha íris cor de rosa
quando o susto arregala as pálpebras
Tem até quem se confunda
com o sorriso largo
dado de bandeja
pela prata do hoje, do momento oportuno
que entrego sem cobrança.

Tem de um tudo,
o pouco, o mito
o todo.

Tem um tolo que quer ressuscitar
um poder mórbido.
Tem o anjo de coroa de espinhos
preto,
como a noite em que visitamos
a cidade do império
Tem tantos tipos
e tantos gostos
que meu rosto se espalha
no fio da navalha que vivo e gargalho

Tem um tempo meu que ninguém toma
minha meninice sapecada de compromisso comigo
Alegria dividida com os sangues úteis.
Nenhum desperdício
só a sutileza do vício pelo ócio

Sonho mais,
assumo o consumismo
da diversão que uso

gosto, gozto e me lambuzo!

Carola Bitencourt
26/01/2012

17 de jan. de 2012

Há um que já se vai despido
Um qualquer que viajará sem despedida
uma parte minha sem janela,
ou uma ventana fechando a traqueia

Um quarto beje de sentido latejante
uma cabeça que dói sem dorflex
num travesseiro sem altura certa!

Há um mais longe
que já está planejado

Uma vez ido volta já mais calculado

Uma cozinha de alma
cerzida em banho maria
outro tampa de diabólicas medidas

Há tanto mar quanto rodovia

Entre esses minha sincera agonia

De ver mais sábia o que me dizia:

Dônde estabas, Carola?

EU ME MANTENHO ESCONDIDA!

Carola Bitencourt
17/01/2012

3 de jan. de 2012

Aqui o ano só começa depois do carnaval
E a festa da carne se esfrega
Entre a sexta feira santa,
o dia de reis e o recém nascido Natal.

Aqui as folhas caem no verão.
Outro outono póstumo.

A Avenida Presidente Vargas fica amarela e preta,
com essas mortas espalhadas,
esvoaçantes, conforme os carros
sobre passam seus corpos.

O sol volta a aparecer
Depois de dado por finado,
reluz um cado delas em cada lado
das vias.
A calmaria irritante do pós-feriado,
essa noite fria que foi ontem
atrasam a vinda do dia
em que a paz encontrará a sabedoria.

Nessa hora
teremos a horda dos espertos
que se dirão responsáveis
pela boa época;

Os verdadeiros responsáveis por ela
abrirão mão da réplica,
do reconhecimento,
por conta da felicidade do momento
e por sentir nele a resignação.

Será que fará diferença
aquela vez em que as folhas
caíram na hora errada?

Ou seremos como os felizes
e não nos lembraremos das metades,
incompatíveis, que foram deixadas?

Aqui as folhas se jogam
Suicidas post-mortem
como fossem mártires glorificadas
merecedoras do mármore,
das homenagens e das estátuas.

Se alguém me provar
Que nessa ordem eu sou a louca e não o luto,
a bruta e não a luta.
Assino cega
O atestado de maluco.
Me tacho de louca
calo meu susto e minha meta!

Carola Bitencourt
03/01/2012